Como dar conta de tudo (só que não)

Acorda, dá o espaço na cama, faz o café da manhã pra cinco, coloca a mesa, ajuda a trocar de roupa, lava a louça, coloca o feijão pra cozinhar, a roupa pra lavar, “que tal a gente ir no parquinho?”, corta fruta, desce um pouco de baixo do bloco, corre atrás do mais novo que sai em disparada, volta pra casa pra mais velha fazer xixi, liga o Netflix, faz o almoço, responde mensagem, arruma as lancheiras, serve o almoço, lava louça de novo, limpa cocô, arruma todo mundo e levar pra escola. Isso só de manhã. Então, como faz para no meio dessa rotina com filhos e dona de casa, ser mulher, esposa e ainda trabalhar ou empreender? A resposta é essa: não é fácil, não existe fórmula pronta pra isso, mas a gente faz uma coisa que a maternidade nos ensina muito bem: tenta desesperadamente fazer dar certo.

Quando as minhas filhas nasceram (sim, são gêmeas), eu resolvi deixar meu trabalho como jornalista para me dedicar totalmente ao cuidado delas. Foi intenso e difícil para uma mãe de primeira viagem cuidar de duas, queria muito provar pra mim mesma que dava conta delas sozinha, sem ajuda de babá, e consegui. Quando elas tinham uns seis meses fiquei com vontade de produzir alguma coisa e com o dinheiro que ainda restava da minha rescisão comprei uma máquina de costura. Não sabia costurar, mas a minha mãe sim, ela me orientou e a partir daí, depois que as meninas dormiam ou nas sonecas diárias, eu (no lugar de dormir também) ia pra máquina. Comecei a entender que descansar não era só dormir, era fazer alguma coisa pra mim também. Fosse escrever (algo que eu sempre gostei), cozinhar, assistir TV sem interrupções constantes ou tentar uma coisa nova.

Comecei a baixar alguns tutoriais na internet e fui fazendo uns babadores, alguém viu os que eu postei no instagram e encomendou. Foi aí que eu pensei, será que não faço uma lojinha virtual de vendo algumas coisas? É nessa hora que sempre digo, não pode pensar muito. Se você tem uma ideia e acha que ela pode ser colocada em prática, que há chance (mesmo que mínima) dela dar certo: faz.  Fazia o que era possível e a loja foi crescendo. No meio do caminho, fui encontrando frustrações também e aprendendo com elas. Às vezes queria costurar, mas tinha que ficar com as meninas. Queria produzir e não conseguia. Então, respirei fundo e entendi que a prioridade era a maternidade e que o resto podia ser feito sem pressão e estresse.

Não foi fácil, mas aprendi a fazer o possível sem deixar de sonhar com o impossível.

Fiquei grávida de novo quando as meninas tinham um ano e quatro meses e a loja chegou num nível que ou eu investia e terceirizava ou não fazia mais. Os tecidos que eu usava eram todos importados e com o aumento do dólar o negócio em si ficou inviável e acabei abrindo mão. Quando o Francisco nasceu o nosso orçamento começou a ficar apertado e tive a ideia de vender bolos saudáveis a partir de algumas receitas que eu já fazia em casa ou tinha inventado pras meninas como bolo de abobrinha ou beterraba com tangerina. Comecei com um bebê de quatro meses entre uma mamada e outra. Meu irmão estava saindo do emprego dele e tinha uma Kombi, então um dia a gente conversando começou a brincar sobre a ideia de vender os bolos na Kombi. Só que levamos muito a sério a brincadeira. Então, investimos, planejamos e começamos fazendo entrega em alguns dias da semana e a produção cresceu tanto que em pouco meses tinha um forno industrial na minha cozinha. Contratei uma empregada para cuidar da casa e ficava entre os bolos e as crianças com todas as vantagens e desvantagens de trabalhar de casa.

É claro que o negócio cresceu, mas foi então que eu percebi que teria que fazer escolhas. Continuava ou não? Pensei de novo nas minhas prioridades e se eu queria realmente fazer aquilo, se era um sonho fazer bolos ou não. E não era . Então, saí da Komboleria e meu irmão continuou o negócio. Não foi sofrimento algum fazer essa transição, pelo contrário, foi libertador, de certa forma. Poder parar, respirar e ver o que realmente queria fazer. Porque a maternidade te traz isso, você começa a perceber que seu tempo é valioso e começa a querer colocar energia só no que vale a pena. É uma oportunidade de se conhecer e se transformar.

como dar conta 2

Nessa busca fui percebendo que queria trabalhar com mães e poder, de alguma forma, ajudar outras mulheres a passar pelos mesmos processos que eu passei. Algo que eu já pensava há algum tempo, mas não sabia como colocar em prática ou tivesse medo (sim, ele faz parte) de seguir em frente. Então, resolvi fazer um curso de doula e ele me levou fundo no universo feminino e me mostrou melhor o caminho que queria seguir. Hoje acompanho partos e faço atendimento pós-parto. E, nessas coincidências maravilhosas da vida, encontrei uma amiga, mãe de três também, no instagram. Ela morava em São Paulo, depois foi pra Barbacena, mas a identificação foi instantânea. Quando ela veio pra Brasília de férias nos encontramos e um mês depois ela se mudou pra cidade. Então, eu e a Lua resolvemos realizar um sonho de fazer uma rede de acolhimento para mães e nasceu o Mamas&manas, que ainda está num processo de crescimento e amadurecimento, mas a ideia é fazer um centro para abarcar todas as coisas que uma mulher moderna precisa.

Acho que dar conta de tudo é um ideal impossível de ser alcançado. Mas isso não quer dizer que não podemos tentar.

É preciso fazer escolhas, abrir mão de certas coisas, mas entender que o caminho do equilíbrio é possível. Hoje vejo que meus filhos não podem, e nem são, impeditivos de nada que eu faça. Pelo contrário, eles são exatamente o que me fazem sair da minha zona de conforto, pensar em mim. Sinto que consegui um trabalho flexível que eu amo, conto com o companheirismo do marido para ficar com as crianças quando preciso e sigo no caminho certo sendo mãe ou eu mesma. Essa precisa ser a nossa busca constante.

 

Tatiana Sabadini é mãe de três, doula, dona do blog Manual da Família Moderna e fundadora do projeto Mamas&manas, uma rede de acolhimento para mulheres.

 

 

 

Na próxima quinta-feira 07/07 às 21hr, vai acontecer o nosso SOS MÃES hangout, um bate papo online e ao vivo onde vamos conversar mais sobre como é possível ( ou não hahah) dar conta de tudo. Venha ver!

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