A Metamorfose da Identidade

Existe no pós parto algo comum na fala de várias mulheres, principalmente nas mães de primeiro filho: questionamentos do tipo “Quem eu me tornei? Cadê aquela mulher que estava aqui? Quem eu sou? Cadê minha identidade?” afligem muitas puérperas. A verdade é que isso é uma daquelas coisas que ninguém te avisa que está sujeito você passar. Ninguém dá esse “pitaco” na fila do banco ou do supermercado “Ei, olha…vai aproveitando enquanto é tempo, porque quando esse menino nascer você não vai se reconhecer e vai se perguntar quando é que VOCÊ volta ao normal!”

A boa notícia (sim, boa, ainda que leve um tempo para nos acostumarmos a essa mudança) é que não volta ao normal. Com a maternidade, um salto de desenvolvimento é praticamente inerente a essa condição. Em minhas pesquisas internas (entre familiares, amigas e pacientes) não vi até hoje uma mãe que tenha “mudado pra pior”, vamos assim dizer. A maternidade te ocupa e envolve de tal maneira, que a gente passa a ser uma pessoa melhor. E olha aí umas das belezas de ser mãe! Costumo dizer que a maternidade é o melhor exercício de empatia que existe, porque te coloca fora da tua perspectiva de mundo. Mães e bebês dividem a mesma frequência emocional  e é a partir desse movimento que as mães conseguem se colocar no lugar do bebê para saber o motivo do incômodo, do choro, da alegria. É enxergar o Outro.

tais borboleta

Mas nem tudo são flores nessa caminhada e até chegar (e enxergar) esse nível de compreensão a mulher passa por um período de re-equilíbrio. Colocando uma lupa na situação de uma mãe que ganhou seu bebê há alguns dias há de se abordar alguns pontos e um deles trata sobre perdas simbólicas. A primeira e mais visível se refere ao próprio corpo. As transformações corporais acontecem de maneira rápida, então onde tinha um bebê se desenvolvendo agora é um barriguinha flácida, os seios entumecidos durante a gestação são volumosos devido ao leite, o cansaço físico nos extenua. O corpo que ela possui não é igual ao que era durante a gravidez e não é igual ao que era antes da gravidez. No mínimo, duas mudanças corporais muito distintas. Um corpo delimita a nossa existência no mundo. Enxergar essas mudanças de maneira madura e suave é tarefa difícil.

Outra perda simbólica que nós (psicólogos) costumamos levar em consideração nesse período são as representações do bebê imaginário x bebê real. As representações maternas dizem respeito as fantasias, expectativas, impressões que a mãe, juntamente com o pai e familiares constroem durante a gestação. Comentários do tipo “Nossa, como ele chuta sua barriga! Vai ser um menino super agitado!” ou “Nossa, sua barriga está com formato de menina! Certeza que seu bebê é uma menina!” compõe essa expectativa. Essa representação vai de encontro ao bebê real, quando ele nasce. Ninguém se imagina mãe de um ser pequenino que chora bastante, seja de fome ou de cólica, que leva bastante tempo para se acalmar, que não dorme e gosta de passar a noite em claro. Devagar, a medida que os dias passam e a mãe conhece seu filho a transição do bebê imaginário para o bebê real se faz.

Ressalto que essa transição pode acontecer de maneira mais delicada em uma gestação que culminou com um parto prematuro ou se o bebê é portador de alguma síndrome ou necessidade especial. Casos como esses precisam de um olhar cuidadoso de um psicólogo. Esse profissional têm condições, técnicas e conhecimento para auxiliar a mãe nesse processo de aceitação e fortalecimento do vínculo.

natalia freud

Ter um filho nos fala a respeito de redesenhar a vida, redefinir prioridades, fazer rearranjos para que o bebê se insira de forma saudável na família. Questionamentos fazem parte do processo de maternar. Sentimentos ambivalentes estão presentes nessa fase, juntamente com a labilidade emocional. De maneira geral, o quadro é desgastante e exige bastante de uma mulher. Então, o que podemos fazer para acolher essa mulher?

  • Seja sensível às necessidades da mulher. Dizer que esse estado emocional é mimi ou frescura não acrescenta em nada. Seja efetivamente companheiro de sua esposa e auxilie-a.
  • Apesar da situação ser delicada, é necessário viver essas emoções e transcendê-las. O suporte é importante e deve existir, porém tendo cuidado de empoderar e dar condições pra que essa mulher desempenhe seu papel de mãe e não, vitimizá-la.
  • É um período de elaboração psíquica. O que isso quer dizer? Inicialmente há perdas de espaço de identificação e até mesmo luto (luto simbólico em que a mulher deixa de ser filha e de receber cuidados para ser mãe e cuidar). Tudo isso precisa ser conversado, acolhido e elaborado, pelo profissional adequado.
  • Se sentir que o fardo está grande, que está difícil transcender às emoções tão fortes e/ou se sentindo perdida, procure um psicólogo. Longe de ser julgada como doida ou como fraca, o psicólogo propicia conforto ao lidar com essa situação, sabe exercitar a escuta especializada, auxilia a compreender seus processos, nomear seu sentimentos.
  • Se ainda assim, você sentir vergonha de procurar um psicólogo, digo: ligue mesmo assim e marque uma consulta. Ninguém precisa saber e ainda assim você receberá apoio.

 

Saiba que a maternidade te abre portas. Possibilita a cura de algumas mazelas. Te dá a chance de re-escrever sua história. Te desvela um mundo de possibilidades. Te faz melhor. Confie nisso!

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