Vivendo sem culpa? Sobre maternidade responsável e também possível

Quando nasce um bebê, nasce uma mãe, e nasce a culpa, companheira dos piores momentos possíveis. A culpa é entregue às mães pelos personagens impossíveis da teledramaturgia, pela vizinha-mãe-de-três-e-todos-comem-tudo ou por qualquer ser humano que esteja por perto e disposto a despejar as projeções de si mesmo em quem está mais fragilizado. É apresentada por diversos contextos e pessoas, mas, sobretudo, é cultivada e construída por nós mesmas desde que somos pequeninas, quando começamos a ordenar internamente o que é bem aceito e o que é recriminado pelos nossos cuidadores e, posteriormente, por nossos amigos, professores, instituições e por aí vai. A culpa, essa entidade com dedo em riste, é produto de nossa crença e de nosso julgamento de que determinado comportamento é imoral.

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O contexto desse enredo é a era da informação, na qual o dr. Google tira qualquer dúvida sobre nosso bebê, ainda que a informação não seja sempre de boa qualidade e exija cuidado na leitura. De qualquer maneira, com informação boa ou ruim, a verdade é que sabemos – intelectualmente, vale frisar – cada vez mais e criamos uma inumerável lista de “tenho que” para exercer na maternidade.

Tal lista, de início, advinha das mulheres da família e comunidade, como avós, mães e vizinhas. Hoje, a Internet faz boa parte do trabalho e aumenta bastante o volume dos deveres e preocupações com os diversos “guias” disponíveis de como se deve maternar. Há também, nas redes sociais, incontáveis recortes românticos da vida real, que mostram apenas um momento de sucesso de uma família e não a totalidade dos desafios da maternidade. Porém, é claro que, nessa imensidão da web, existem muitas informações valiosas e devem, sim, ser consideradas por nós, mas, quando se tornam meramente um ideal a ser atingido, e não fontes de reflexão, temos um problema.

Portanto, para o bem e para o mal, sabemos hoje muito mais sobre gestar, parir e maternar, o que pode nos tornar mais empoderadas e autônomas, mas temos cada vez mais nossa intuição descalibrada e nossa confiança diminuída pela incapacidade de entregar-se visceralmente aos processos que vivemos.

Somado às incontáveis informações que adquirimos e aos ideais de maternagem que criamos, há ainda o efeito produzido pela sociedade patriarcal e capitalista que nos estimula à competitividade desde pequenas. Desde a concepção, há o mito da competição: seria o espermatozoide mais rápido ou o mais resistente que chegaria primeiro ao óvulo. Ainda bebês, recebemos as projeções dos cuidadores que comparam seu rebento com os outros e, quando se iniciam as interações sociais, brinca-se de quem chegará primeiro. E assim seguem os ensaios competitivos, todos estimulados por adultos que sugerem ou confirmam a necessidade de ser o melhor, o mais bonito, o mais rápido, o mais esperto.

Essa competitividade, que é nutrida pela necessidade fantasiosa de ser comparativamente melhor, nos acompanha por toda a vida e nos faz terríveis com nós mesmas e com as outras mulheres – e a sororidade manda um abraço! -. Lá no íntimo, o status de boa mãe muitas vezes está atrelado a sermos melhores que outras mães, ou seja, dá-se pela comparação.

Nessa comparação, buscamos nos sentir mais capazes de infinitas coisas. Esse esforço infantil para aumentar a autoestima acaba gerando vivências de depreciação e falta de empatia, pois é preciso inferiorizar alguém para que nos sintamos superiores. E aí o feitiço pode virar contra a feiticeira, gerando um sentimento de menos valia, exatamente o mesmo do qual estávamos tentando nos livrar. Isso acontece porque somos crianças feridas, pouco confirmadas em nossa essência, de modo que, se há alguém melhor, esse alguém é a outra pessoa. Além disso, o julgamento de alguém tende a ser uma projeção de um aspecto que também é da julgadora, e que pode até estar bem escondidinho, mas que é revelado nesse deslize do inconsciente.

Nessa equação, ainda podemos acrescentar que, em geral, nascemos em famílias que foram pouco disponíveis para fundir-se emocionalmente a nós, o que nos torna mães com a mesma dificuldade de compartilhar o território emocional com os filhos. O resultado disso é que, por vezes, não conseguimos nos conectar e perceber a real necessidade de nossos bebês. A sensação – via de regra, fantasiosa – de não conseguirmos suprir nossos filhos pode ser o pontapé para comparações e busca por idealizações da maternidade que nada têm a ver com o bebê em questão, mas com as filhas que fomos, com as crianças emocionalmente feridas que ainda somos.

Voltemos à culpa. Como tudo tem dois lados, necessário observar que ela exerce também uma importante função: a regulação social. Já pensou se não houvesse censura e saíssemos fazendo tudo que desse na telha? No nosso nível de evolução social, seria um caos. A culpa promove uma autorregulação, por meio da tentativa de evitar esse sentimento. O seu maior entrave, porém, é quando se torna paralisante pela quantidade de sentimentos disfóricos que vão se desenvolvendo, tornando-se inibidora e até patológica, por reter a energia criativa da pessoa. Nesse caso de sofrimento mais intenso, é importante ter o apoio de algum profissional para atravessar esse caminho argiloso.

Mas é preciso registrar: a culpa é um julgamento e não uma realidade factual. Na verdade, o que a realidade traz é a responsabilidade, e essa é a chave para lidarmos com a culpa. Vou dar um exemplo fictício, mas que é muito comum e poderia ser real.

O filho da Ana, de 3 anos, tem agredido os amigos da escola. Ana tem, então, dois caminhos: o do julgamento ou o da responsabilidade. No julgamento, ela irá se identificar com discursos incapacitantes, tais como “estou falhando na educação do meu filho” e sua reação será raivosa ou melancólica, ambas paralisantes, dificilmente construtivas. Já no caminho da responsabilidade, Ana perceberá o sentimento evocado pela situação e irá explora-lo para identificar qual aspecto dela e/ou do meio pode estar sendo manifestado pelo filho. Conseguirá, com essa escolha, acolher a criança e também se comprometer com a consciência adquirida. Sem julgar. Apenas por meio de constatações. Bem, então a culpa é de quem? DE NINGUÉM. A culpa, na essência, não existe. O que existe é a responsabilidade.

Mas, veja bem! Precisamos internalizar que o caminho da responsabilidade na maternidade não é o da perfeição, até mesmo porque o que o bebê realmente precisa é de uma mãe disponível para comprometer-se com ele, e não de uma mulher infalível. Responsabilizar-se é, em essência, assumir a própria humanidade, com tudo que há de luminoso e sombrio. E, para que isso aconteça, é primordial o autoconhecimento, o qual envolve compreender e ressignificar de onde viemos, quem somos e aonde queremos chegar.

Somente com uma inspeção profunda de si e uma intimidade com as nossas fantasias é possível entender a função da culpa em nossa existência – sim, a culpa tem sua função e este é o motivo pelo qual muitas de nós não conseguem despedir-se dela -. Abrir mão da culpa significa abandonar um funcionamento conhecido, o de ser vítima ou de ser algoz ou de sentir-se superior ou qualquer outro que seja, e reconstruir-se, encontrando uma nova maneira de relacionar-se.

Nesse caminho conduzido pelo autoconhecimento, podemos, pois, compreender a culpa que se manifesta e torná-la uma ferramenta importante, transmutada em responsabilidade. A culpa pode deixar de ser a inimiga que apenas julga e critica e tornar-se uma comadre que sinaliza que algo não vai bem e te ajuda a investigar o que se passa.

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É possível então viver sem culpa? Sim, claro, desde que ela seja ressignificada. Não há, porém, uma receita de como fazê-lo. Há um caminho, que é individual e cabe a cada uma de nós descobri-lo. Esse caminho do compromisso com a consciência e a coragem para enxergar a nossa totalidade, que tem luz e sombra, podem trazer não apenas mudanças atitudinais, mas também compaixão e ternura, que são sentimentos acolhedores e também de muita força para a transformação.

Na próxima quinta-feira 09/06, vai acontecer o nosso SOS MÃES hangout, um bate papo online e ao vivo onde vamos conversar mais sobre essa companheira: A CULPA. ACOMPANHE O BATE PAPO AO VIVO AQUI! Prepare suas perguntas!

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WhatsApp-Image-20160603Ananda Yamasaki

Mãe e psicóloga clínica, reverencia a vida e todas as oportunidades que os ventos trazem. Aventurando-se na arte do autoconhecimento, experimenta e propõe diversas formas de mergulharmos nos mistérios da psique para reencontrarmos nossa essência. Contatos:  ananda.yamasaki@gmail.com  (61) 98173-7352

 

 

Imagens: Photo via Visual hunt

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